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March 10, 2005

A Decisão

  Podia partir rumo a qualquer outro países que não faria diferença: aquele era o seu local de nascimento e sem duvida que seria o seu túmulo final. Ao longo de todo o dia tinha pensado nisso. Estranha premonição de cores pouco reais. Conseguia observar o mundo, mas nunca conseguira verdadeiramente viver nele. Sempre assim fora, até ao dia de hoje.

 

  Hoje tinha começado o dia como sempre. Levantou-se com tempo de sobra para as suas pequenas rotinas diárias como beijar o dia com um “olá” e tomar o seu duche e pequeno almoço. Sempre lhe disseram que o pequeno almoço era a refeição mais importante do dia e ela nunca tinha prestado grande atenção a isso até que começou a viver sozinha. Há coisas que chegam tarde mas ainda são válidas mesmo assim.

 

  Depois da rotina, começa o dia. Um dia de trabalho e corridas para vencer a rotina que se instala. Pica o ponto. Trabalha. Pica o ponto. Almoça. Pica o ponto. Trabalha. Pica o ponto. E paz. A única coisa boa do dia é que o dia de trabalho em si, termina ás 5 da tarde. O resto do dia é dela.

 

  Uma ida ao parque. Um passeio na praia. Os sons e cheiros da Primavera já vagueiam pelo ar. Apesar de ainda se sentir a gélida brisa do Inverno a dizer adeus, os dias são já uma suave premonição do tempo ameno que ai se avizinha.

 

  Aproveita e dá um saltinho na sua pastelaria preferida. Um lanche e uma caminhada até casa. O horizonte ideal para alguém que se tenta manter além e distante de tudo o que a rodeia. É mesmo assim que tem que ser. A paz e liberdade total tem um preço que muitos não aceitam pagar. Ela aceitou sem medo. Faz muitas coisas assim, sem medo.

 

  Apesar disso, e devido ás visitas já habituais, a senhora da pastelaria já a conhece e tem sempre um sorriso para lhe oferecer. Nunca trocaram uma só palavra para além do tradicional pedido e resposta automática. Mas ainda assim, parece que sempre conversaram imenso. Parece para alguém que olhe de fora. Fora do alcance do real de ambas. Mas para ela basta-lhe e a senhora sente isso e não pede mais. Um obrigado e um até amanhã.

 

  Caminhar á beira mar para casa. Certas pessoas nunca conseguem sentir a total felicidade que ela se habituou a chamar rotina. Uma rotina simples. Desprovida de anseios ou preocupações. Uma contradição que provoca o resultado ansiado pela explosão de vida que todos os dias ela se esforça para manter aparte. Ela existe para si mesma. Existe consigo mesma. Existe. Não tenta subsistir. Essa é a escolha e a sua virtude pessoal.

 

  Ao horizonte, como sempre, tem o pontão e o pôr-do-sol de uma tarde dourada. Senta-se na areia e sente o calor que o sol repousou sobre os finos grãos de areia branca que cobre a praia. Deita-se e respira. Tão bom. O silencio de uma mente limpa de pensamentos desnecessários. O essencial é o vital. Nada mais.

 

  Abre os olhos e observa o ponto do som que parece zumbir ao longe. Uma mão. Uma cabeça. Uma pessoa que grita por socorro. Abre os olhos e num milésimo de segundo tem o pensamento de ir pedir ajuda. Mas depois entende que quando voltar, a ajuda já não será necessária. Resolve. Decide-se. Conhece aquelas águas. Entra no mar e a grande custo consegue os eu intuito: salvar uma vida em troca de outra.

 

O esforço é demasiado e depois da certeza de terra firme, o sono. O branco. A paz. A tristeza.

 

  Acorda na cama de um hospital. Os cheiros ditam o local e a premonição marca a certeza que teve no inicio do dia. Médicos e enfermeiras dão-lhe os parabéns. Salvou a menina. Ela está bem. Mas.. Ela já sabia. Ela entendeu. Ela já o sentira.

 

  Dias mais tarde ajoelha-se na terra. Frente a uma pequena campa aonde jaz um pequeno corpo desprovido de espirito e do seu direito a tentar, também ele, alcançar a sua pequena felicidade. Na pedra lê-se somente em letras grandes e negras: Saudade. Ela baptizou-a mesmo com esse nome. Saudade. Uma palavra tão sua. Um sentimento que vai ser tão seu apartir de agora.

 

  E a sua vida continua. A mesma rotina. Um sentimento diferente. Agora. Um pouco mais triste. Com muita mais saudade. E com menos dela.



12:00 pm - moon

  

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